Vamos ter que sair de casa

Não é surpresa para ninguém o anúncio de que teremos o estado de emergência renovado até (pelo menos) ao início de maio. A única dúvida será perceber o conteúdo das medidas e o momento que o Governo irá escolher para retomar, gradualmente, alguma atividade económica.

Muitas pessoas nem querem ouvir falar de atividade, considerando que é cedo e que a economia conta pouco numa crise de saúde pública. Os números de ontem confirmam o elevado risco em que estamos mergulhados, mas perceber as dificuldades que temos pela frente não impede de discutir passos futuros. Até porque a ação política é isso mesmo: a permanente tomada de decisões.

Querer reduzir a discussão à dicotomia vida versus economia é uma simplificação. A questão é outra, mais difícil: como proteger integralmente a vida salvando o que for possível da economia. Não haverá risco zero durante muito tempo e a fase que se segue será aprendermos a viver com o vírus. Estamos a ganhar tempo para a ciência e o conhecimento que vai aumentando é uma vantagem. Sabemos hoje muito mais sobre os comportamentos a adotar, com os estudos de imunidade perceberemos melhor as taxas de infeção e mortalidade, com tempo haverá ainda mais esperança numa vacina ou num tratamento eficaz.

Ainda assim, até que a ciência nos dê respostas, sairemos à rua com o vírus a circular. E temos de ser inteligentes a decidir de que forma, quando e com quem começaremos a fazê-lo. Num esforço partilhado, que mais uma vez deve ser assumido coletivamente. Temos falado muito nos heróis da linha da frente, mas nem sempre nos lembramos que heróis são também os camionistas, os agricultores, os funcionários da recolha do lixo, os polícias, os operários de pequenas fábricas que continuam a produzir, os empreendedores que procuram soluções criativas para a falta de equipamentos.

Nesta fase estar em casa é a melhor ajuda que lhes podemos dar. Chegará a fase em que sermos mais a sair é a solução para, recorrendo à metáfora náutica que tem sido muito usada, o bote salva-vidas em que navegamos não se afundar. Porque estamos todos no mesmo barco, mas nem todos sentimos igual aperto e balanço. Alguns já caíram à água. É nossa obrigação, os que estamos a salvo, agir com e por eles.

Inês Cardoso (Jornal de Notícias)