Uma Páscoa responsável

Enquanto centenas de doentes lutavam contra a morte nos cuidados intensivos e milhares de profissionais de saúde combatiam pela vida, muitos portugueses circulavam ontem pelas ruas.

Filas a serpentear hipermercados cheios de gente, feiras congestionadas, esperas em grupo junto às caixas Multibanco, como se o dinheiro fosse acabar. Lamentavelmente, começa a escassear em muitas carteiras, mas só porque abundam casos de empresas que não conseguiram pagar salários no final de março. Só não isso. E não é pouco. De resto, não conheço as razões que levaram tanta gente à rua, portanto, não as avalio, mas parece-me importante renovar o alerta.

A situação atual, não duvidem, vai agravar-se se o nosso comportamento conhecer uma inversão em relação ao que todos pudemos constatar nas últimas semanas – Portugal recolheu-se e os resultados estão à vista. A Covid-19 atacou forte no coração de muitas famílias, deixando-as entregues à dor do luto sem o abraço ou o beijo, sem o toque, bem mais reconfortante do que as mensagens quase impessoais e mecânicas que enxameiam redes sociais.

O mínimo que podemos fazer, mais não seja por respeito a esta crueldade pandémica e aos que todos os dias se levantam com a missão de a combater, é seguir todas as indicações de segurança, protegendo-nos e aos outros, começando a encarnar uma nova normalidade que será a nossa nos próximos meses. Exige-se, sobretudo, responsabilidade social, sem pensar em curvas boas e más, curas milagrosas e outras alquimias, resumindo a circulação e o contacto ao estritamente necessário.

Por muito que nos custe, o novo coronavírus condenou-nos a celebrar esta quadra em confinamento – o que para muitos significa perder uma oportunidade única de ver a família. É duro. Porém, só assim será possível continuar a encarar o futuro com algum otimismo. Cheio de dúvidas, mas com uma certeza: em 2021 também haverá Páscoa.

Vítor Santos — Jornal de Notícias