Princípio, meio e fim

Nunca sabia dizer se era segunda ou quarta, não distinguia uma terça de um domingo, e às vezes esquecia até em que mês estávamos. O meu filho tinha acabado de nascer e, pela primeira vez na vida, experimentei a sensação de desnorte total.
A privação de sono poderá ter ajudado. Às tantas uma pessoa não sabe sequer se é dia ou noite… com os estores todos corridos e aqueles vídeos de “white noise” que os bebés supostamente apreciam (como é que os especialistas terão tanta certeza, se eles não falam?).
Claro que há também aquela sensação parecida, e tão procurada nas férias como o nirvana numa sessão de meditação, de não saber bem se é quinta ou sexta, porque não interessa. Mas aí a desvinculação com a realidade não é tão intensa. Há sempre uma ida ao quiosque para comprar o jornal (na verdade é a TVMais, mas não queria confessar aqui que só leio coisas abaixo do rating “lixo” quando estou na praia), há uma reserva que temos de fazer naquele restaurante de rodízio de peixe, que fecha às segundas, há um jogo de apuramento para a Liga dos Campeões que queremos ver, às 20 horas de quarta. Mas ficamos sempre contentes quando perdemos a conta aos dias. Na primeira semana de viagem é difícil que aconteça, mas lá para a segunda eis que surge essa ligeira confusão mental, que é vista como um triunfo: a prova de que as férias estão a fazer efeito, e já desligámos das rotinas do trabalho.
Agora, perante uma pandemia (a primeira a que assisto assim, in loco, sem ser naqueles filmes péssimos que dão no SyFy) esta sensação de estarmos perdidos na semana e nos meses é mais assustadora. Não tanto por não distinguirmos o início do fim de semana (a paisagem é sempre a mesma, do hall com vista para a sala), mas por não sabermos onde começa e acaba este isolamento, quanto dura o estado de emergência, se chegaremos à calamidade e à cerca sanitária, se poderemos livrar-nos deste léxico epidémico sem o qual passávamos bem. Até há bem pouco tempo planeávamos a nossa vida falando em semestres, períodos, férias, licenças de casamento ou maternidade, Erasmus, licenças sabáticas, estágios, reformas… eram esses os períodos temporais que regiam os nossos dias. E tinham uma coisa boa (sim, até os períodos de trabalho): sabíamos quando começavam e acabavam. Exceção feita à reforma, pronto… mas aí até era bom sinal se durasse imenso.
Não deve haver nada mais frustrante do que chegar finalmente à almejada reforma e bater logo a bota, saltando diretamente do descanso merecido para o descanso eterno! Há umas semanas escrevia Luís Pedro Nunes no “Expresso” que “a prova mais dura das forças especiais britânicas SAS consiste num conjunto de exercícios físicos que os recrutas não sabem quando irão terminar. Pode ser nesse dia ou 48 horas depois. Essa incapacidade de gerir o esforço, de prever o fim, de antecipar o momento em que se irá descansar leva muitos a desistir (…). Eis o drama em que nos encontramos”. É de facto aqui que nos encontramos, é neste ponto, de não retorno, que se dá o nosso encontro. É uma espécie de comunhão. Comungamos da mesma angústia: a de não ver a luz ao fundo do túnel. Não sabemos se estamos a atravessar o túnel do Marquês ou o do Canal da Mancha. Todos queremos saber quantos quilómetros tem e nem o Waze nem o Google Maps estão na osse dessa informação.
Até aquelas pessoas que nunca programam nada, que se gabam de “viver ao sabor do momento”, gostavam de saber quando é que isto acaba. Porque o sabor deste momento não é grande coisa, sabe um bocado a ranço, como aquela manteiga que tenho no frigorífico por não ter açambarcado mais Primor. Até esses, os improvisadores natos, estão ansiosos por voltar a poder pôr uma mochila às costas e partir, sem nada marcado. Enquanto os outros estão ansiosos por poder programar tudo até dezembro de 2021. É que os tempos estão tão maus para quem não tinha nada reservado como para quem olha sempre com reservas para o que o futuro nos reserva. Lembro-me de aprender nas aulas de Português que as composições tinham de ter princípio, meio e fim. E é esse o problema desta história em que fomos enfiados à força: não sabemos se estamos no princípio ou se isto já é aquele meio onde está sempre a virtude.
A única certeza que temos é que não é o fim. Sei que vou na página 25 do meu isolamento social mas não sei se estou a participar num daqueles calhamaços do José Rodrigues dos Santos ou num volume de Apontamentos Europa-América que despacha “Os Maias” em 40 páginas…
Joana Marques — Jornal de Notícias