Nwankwo Kanu: exemplo para outros tantos jovens que brincam na rua

Nwankwo Kanu cresceu em Owerri, na Nigéria. Corria solto, livre, nas ruas onde qualquer objeto arredondado servia de bola. O futebol era um momento de alegria, o escape diário a uma vida de dificuldades onde a pobreza era real.

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Tinha um talento natural para o jogo mas nunca pensou fazer carreira. O seu pai jogou futebol e foi dirigente de um clube local, Spartans. Foi um apoio importante para o filho, incentivando-o a seguir o seu sonho. Aos 16 anos, o jovem Kanu já jogava pelo Iwuanyanwu Nationale (atual Heartland FC) e celebrava o seu primeiro título de campeão nacional. As suas exibições motivaram uma chamada à Seleção Nacional de sub-17 para disputar o Mundial da categoria, no Japão. Estávamos em 1993 e a Nigéria venceu a competição. Com 5 golos em 6 jogos, Kanu foi peça-chave neste triunfo e atraiu atenções na Europa.

O Ajax chegou-se à frente e levou o prodígio nigeriano. Em Amesterdão encontrou uma equipa recheada de estrelas, numa mescla poderosa de juventude e experiência. Jogou com grandes nomes como van der Saar, Frank Rijkaard, os irmãos de Boer, Edgar Davids, Seedorf, Overmars, Kluivert ou Litmanen. Em três anos, Kanu confirmou as expectativas que motivaram a sua contratação e juntou vários títulos às dezenas de golos que apontou. Foi tricampeão holandês, conquistou a Liga dos Campeões, a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental.

Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, liderou a seleção nigeriana rumo ao lugar mais alto do pódio. Ao Ouro olímpico juntou ainda a distinção de Jogador Africano do Ano.

Encantados com o seu futebol e o seu faro pelo golo, os italianos do Inter de Milão contrataram-no. Aos 20 anos Kanu rumava ao campeonato das estrelas. Porém, durante os exames médicos, foi-lhe detetado um grave problema cardíaco que lhe travou, de forma brusca, a ascensão. Ficou um ano sem jogar e teve a carreira em risco. Voltaria em 1997 mas sem o fulgor de outros tempos. Fez parte do início da campanha que culminou na conquista da Taça UEFA pelo Inter em 1998 mas não se conseguiu afirmar em Itália e acabou por sair a meio da época, em janeiro de 1999.

Arsène Wenger foi o homem que acreditou em Kanu e o recuperou. E Kanu viveu no Arsenal aquele que foi, provavelmente, o período mais áureo da sua carreira. Técnica, velocidade e instinto finalizador. Fez valer a sua impressionante compleição física e as suas pernas longas para se destacar. Reencontrou Overmars e juntos fizeram uma parceria de sucesso. O nigeriano era um jogador decisivo. Muitas vezes saído do banco, qual arma secreta, resolvia jogos. Ficou célebre o seu hat-trick em Stamford Bridge numa tarde de outubro de 1999. A quinze minutos do fim os Gunners perdiam por 2-0 e Kanu conseguiu uma reviravolta épica. A chegada de Thierry Henry fê-lo perder espaço e preponderância na equipa, mas nunca no coração dos adeptos. Durante a sua passagem pelo Arsenal foi eleito novamente Jogador Africano do Ano, venceu dois campeonatos – o último dos quais, em 2004, de forma invicta – e duas Taças de Inglaterra.

No final do seu contrato partiu para o West Bromwich Albion onde viveu duas temporadas aflitivas. Se na sua estreia ainda evitou a descida de divisão, tal já não aconteceu em 2006. Os Baggies terminaram em penúltimo e desceram ao Championship. Kanu, ainda que sem o impacto de outrora, continuou na Premier League ao serviço do Portsmouth. A conquista da Taça de Inglaterra, em 2008, terá sido o ponto mais alto de uma passagem marcada por um período conturbado na história do clube que desceu de divisão em 2010 e tornou a cair em 2012, ano em que Kanu colocou um ponto final na carreira.

Foi um dos jogadores nigerianos mais célebres e titulados de sempre. A sua longa carreira internacional contou com seis participações na CAN e em três Mundiais. Ajudou a mudar o paradigma do futebol na Nigéria e é um exemplo para outros tantos jovens que brincam na rua e têm o sonho de virem a ser protagonistas no belo jogo.