Jim Morrison: uma vida à margem

Cantor, poeta, indivíduo que dava magia às palavras, conferindo-lhes caráter e personificando-as ao ponto de conviverem com as aves no céu, para onde os acompanhantes do seu trabalho olhavam à procura de uma explicação para tamanha genialidade. Foi ele Jim Morrison, o vocalista da mítica banda que marcou os anos 60, banda essa denominada The Doors. Partiu com somente 27 anos (a idade negra de um músico pois tanto Jimi Hendrix como Kurt Cobain, Amy Winehouse ou Janis Joplin faleceram com a mesma), deixando um legado inestimável e muita inspiração para os seus sucessores no plateau da música.

Fonte: comunidadeculturaearte.com

James Douglas Morrison nasceu na vila de Melbourne, localizada no estado da Florida, a 8 de dezembro de 1943, filho de Clara Virginia e de um almirante da Marinha norte-americana de nome George Stephen Morrison, tendo dois irmãos mais novos. Deambulando muito de residência por força do cargo do seu pai, Morrison possuía uma paixão voraz e precoce pela leitura, em especial nos campos da filosofia e poesia, sendo influenciado pelos conceitos de Friedrich Nietzsche, pela estrutura poética de Arthur Rimbaud, por existencialistas de origem francesa e por autores como Franz Kafka (tendo este falecido no dia da morte do cantor mas 47 anos antes), Molière ou Honoré de Balzac. Foi com esta base teórica e literária que Jim Morrison desenvolveu as suas primeiras composições líricas e as letras para o que seriam as suas futuras canções.

Aquando do seu ingresso na universidade de Califórnia, mais concretamente no pólo de Los Angeles, o cantor tinha já cadastro, sendo preso por ter pregado uma partida após a finalização de um jogo de futebol americano. Foi aqui que a sua poesia ganhou contornos mais obscuros após ingressar em aulas de Literatura Comparativa quanto ao surrealismo teatral de Antonin Artaud. Foi também no tempo académico que o jovem enveredou por um estilo de vida boémio e inconsequente, tomando contacto com drogas pesadas pela primeira vez e começando também a cantar, dando já concertos e gravando os seus primeiros álbuns ladeado pelo teclista Ray Manzarek durante o verão de 1965.

Entretanto, com a adição do baterista John Densmore e do guitarrista Robby Krieger, o grupo tomou o nome “The Doors” a partir do livro de Aldous Huxley “The Doors of Perception”, derivando este de uma citação da obra de William Blake designada “The Marriage of Heaven and Hell”. Quanto às canções compostas, ao contrário do que é famigerado, o guitarrista Robby Krieger tinha também uma forte propensão para escrevê-las, escrevendo algumas na íntegra ou em conjunto com o vocalista. Este, por sua vez e não usando instrumentos de modo frequente à exceção de maracas e de pandeiretas, produzia espontaneamente melodias vocais para os escritos propostos para as músicas.

Posso fazer a terra parar
no teu trilho. Fiz os carros azuis
irem embora.

Posso fazer-me invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigante e atingir as
coisas mais distantes. Eu posso mudar
o curso da natureza.
Posso plantar-me em qualquer lado
em espaço ou tempo.
Posso citar os mortos.
Posso perceber eventos noutros mundos,
na minha mais profunda mente interior,
e nas mentes de outros.

Eu posso

Jim Morrison, “Poder”

 

Vestindo-se andrajosamente e com uma conduta pública lamentável, gerando escândalos ao tentar motivar motins e proferindo heresias que caíam mal no seio da sociedade bastante conservadora e inflexível na qual os The Doors se inseriam, com estes a cancelar uma rodada de concertos face ao sucedido com o seu vocalista. Até John Densmore, baterista da banda e amigo de longa data, questionava e sentia-se saturado com esta rotina do músico.

À margem do ocorrido, Jim Morrison, já em Paris com a sua companheira de vida Pamela Courson, faleceu em Paris a 3 de julho de 1971 por uma alegada falha cardíaca, sem que uma autópsia lhe tenha sido realizada. Courson assumiu que Morrison faleceu devido a uma overdose acidental na ingestão de heroína, apesar deste não ser fã de drogas injetáveis e pensando que se tratava de cocaína, dando-se, assim, uma hemorragia fatal.

Com uma vida pessoal conturbada, emaranhada em vícios e em condutas emanadas do caráter de bon vivant e de enfant terrible que o cantor demonstrava ter, Jim Morrison marcou o seu cunho no planeta em que viveu pela genialidade tanto pelo que escrevia como pelo que cantava. Marcando um sem número de gerações vindouras e ainda gerando fãs por toda a parte do mundo, foi curta a vida de Morrison em extensão mas não em dimensão. Conjugando as palavras em versos e colmatando com o poder vocal a propensão divinal que detinham, Jim Morrison está no panteão dos que coloriram os momentos mundanos daqueles que apreciam a arte das pequenas coisas, sendo este o passaporte para a grandeza de espírito. E este fê-lo tão bem.

Se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que se sentem.

Jim Morrison sobre a sua poesia.